sexta-feira, 25 de maio de 2012

A RESPONSABILIDADE DE TER ACESSO À EDUCAÇÃO QUANDO A MAIORIA DO PAÍS NÃO TEM

Em 1995 o escritor português José Saramago presenteou o mundo com uma obra prima, o livro “O ensaio sobre a cegueira”. Nele, um homem perde a visão, repentinamente no trânsito e na sequência todos também vão ficando cegos e sendo postos em quarentena em um ambiente de humilhação e degradação humana. O próprio Saramago fala a respeito de sua obra: "Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto quanto eu sofri ao escrevê-lo”. Apenas uma mulher, misteriosamente manterá a sua visão, enfrentando todos os horrores que se apresentarão. É interessante que José Saramago não faz a distinção de personagens pelos seus nomes, mas sim pelas suas características, como: o primeiro cego, a mulher do primeiro cego, o médico, a mulher do médico (a única que vê), a rapariga dos óculos escuros, o velho com a venda no olho, o rapazinho estrábico. O escritor ganhou o Prêmio Nobel de literatura no ano de 1998 por esta história fanstástica (mas nada fantasiosa).
Quando escreveu a frase: “A responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”, certamente Saramago sabia que ela se aplicaria a muitas situações da vida e uma delas, podemos dizer, é a Educação brasileira.
Dados mostram que 82% da população brasileira de mais de 5 anos de idade tem um ou mais anos de escolarização, mas somente 41% vai além dos quatro primeiros anos de educação básica, que correspondem ao antigo curso primário. 18% completam o curso básico de 8 anos, e somente 0,6% concluem a educação secundária. Reflitam bem este número. Ele quer dizer que a cada cem estudantes que iniciam a escola, menos de um, isso mesmo, menos de um termina o ensino secundário. E o analfabetismo absoluto, ainda existente sobretudo nas camadas mais pobres da zona rural e entre pessoas mais velhas. Quanto ao ensino superior, somente 10% dos alunos da faixa etária condizente com este nível consegue entrar em algum tipo de estabelecimento de ensino superior. É neste pequeno número, nesta parte mais fina do funil, que estou incluída. E também todos os universitários. Incluindo os meus alunos. Ouviram (leram bem)? Vocês são “aqueles que têm olhos, quando todos os perderam”. Portanto, ter a chance de ingressar e concluir um curso de nível superior não é um privilégio. É uma responsabilidade. É sua responsabilidade enxergar, ver, não se omitir aos desmandos dos poderosos e dos políticos. É sua responsabilidade não fechar os olhos aos problemas sociais do nosso país e do mundo. Não fechar os olhos para aqueles que sofrem, para aqueles que lutam com muita dificuldade para sobreviver. É sua responsabilidade garantir que no futuro, outros e em número maior tenham a chance que você está tendo agora. É sua responsabilidade ser alguém melhor para o mundo. Lembre-se disso, e daqui alguns poucos ou muitos dias quando você subir os degraus da sua formatura para pegar seu tão sonhado diploma será o responsável por conduzir pela mão uma fila de milhares de brasileiros, por ser o único que tem olhos.
Dados Científicos por: Simon Schwartzman, Eunice Ribeiro Durham e José Goldemberg. A Educação no Brasil em uma perspectiva de transformação - Universidade de São Paulo, 1993.
http://www.schwartzman.org.br/simon/transform.htm


sexta-feira, 18 de maio de 2012

HARRY POTTER (DA GENIAL J.K.ROWLING) - UM CONTO DE FADAS (OU DE BRUXAS) DOS TEMPOS MODERNOS


No meu tempo de criança os contos de fadas eram usados como importante recurso na educação de crianças e adolescentes. No final, sempre aparecia a “Moral da História”. Ou seja, os ensinamentos que podíamos tirar daquela fábula e aplicar à nossa vida cotidiana. Em plena era da tecnologia e da globalização, onde tudo circula rápido demais, os contos de fada também mudaram, mas ainda continuam, no final de tudo ou no decorrer da história, nos dando boas lições. Na minha idade talvez eu já devesse ter superado essa coisa de contos de fadas e coisa e tal. Mas algumas histórias estão acima dessa coisa de idade, de sexo, de nível cultural e são atemporais. Ou melhor. Algumas histórias são eternas. Este é o caso do mais brilhante conto de fadas (ou de bruxas) dos tempos modernos (em minha apaixonada opinião): Harry Potter.
J.K. Rowling, a autora, conta a história do mundo dos bruxos onde três bruxinhos ainda crianças vão gradativamente criando fortes laços de amizade e de valores. Ao mesmo tempo cria um universo paralelo cheio de personagens menores e suas histórias vão se encaixando perfeitamente à história central. Para um HP infantil de 11 anos, a autora cria uma história cheia de encantos e de fantasias infantis. A pedra filosofal é uma história leve e cheia de magia. À medida que o tempo passa, HP cresce e amadurece e junto com o personagem a história também amadurece. Um personagem mais maduro já enfrenta problemas mais reais. Em Cálice de Fogo, HP vê-se diante da morte de um amigo. Já não se trata mais de um universo infantil e, aos poucos, HP vai convivendo com perdas cada dia mais próximas: Cedrico, no quarto livro; Sírius no quinto; Dumbledore no sexto. HP vai ficando endurecido pelo sofrimento até estar perfeitamente maduro. Até estar pronto para a pior perda de todas: a da própria vida. Em nenhum momento JK banaliza a morte. Ela é tratada sempre como um inimigo cruel, implacável e sem solução até que Harry se vê diante da necessidade de morrer para salvar todos aqueles que ele aprendeu a amar. Então, “aceita a morte como uma velha amiga”, como diz o conto dos três irmãos de Beadle, o bardo. Aos poucos HP se dá conta de que a vingança não é importante. É necessário lutar por um bem muito maior: o direito a ser livre. O ultimo livro é denso, forte. Traz conflitos sérios e decisivos para a vida dos personagens: a lealdade, a confiança, a amizade, a partilha, são temas tratados com ternura e profundidades que raras vezes vi em uma história infanto-juvenil. Ah! Mas a essa altura a história de HP já deixou de ser infanto-juvenil e já é coisa de gente grande.
Na adaptação para o cinema, os personagens de HP ganharam rostos, formas. Ganharam vida. É fantástico ver um Ralf Fiennes transformar-se em Lord Voldemort, o Bruxo do mal. Um vilão extremo, louco pelo poder. Normalmente, em livros e filmes os vilões são bobos, sempre demoram demais pra puxar o gatilho e ficam “brincando com a comida”. Voldemort é um vilão inteligente que premedita cada passo. Um psicopata. E não bobeia na hora de lançar seu “Avada Kedavra”. É implacável quando mata Lílian e Thiago.
Estrelas de primeira grandeza brilham ao lado de meros desconhecidos (pelo menos até então). No terceiro filme, o maravilhoso Gary Oldman (o eterno Drácula) dá vida ao não menos espetacular Sírius Black, um homem destemido, irreverente, apaixonante. Infelizmente sua participação é curta (mas decisiva), na história. A história de HP cresce tanto à medida que se aproxima do desfecho final que até o logo da Warner vai ficando mais sombrio e a música incidental mais dramática. Harry, Rony, Hermione, conquistaram meu coração embora eu não seja adolescente. É que valores como esses trabalhados em HP são eternos. Queria que a história não tivesse acabado.
Antigamente, ser chamada de bruxa era uma ofensa e tanto. Hoje, para fãs de HP ser chamada de bruxa é um elogio. HP mostrou que não é uma coisa ruim ser bruxo, que os bruxos não são maus. São apenas, diferentes, como tantas outras diferenças. Muitas vezes fiquei imaginando um passeio de vassoura na noite fria com uma capa esvoaçante e a minha silhueta escura de encontro com uma lua cheia grande e brilhante. Quantas vezes imaginei o gosto da cerveja amanteigada, do suco de abóbora, um sapinho de chocolate...humm! E até o amargo gosto do Esquelesce...! Imaginei a sensação maravilhosa do vento batendo no rosto, enquanto cortava o campo em uma partida de quadribol, para finalmente fechar meus dedos ao redor do pomo de ouro. E até hoje sinto vontade de chorar ao recordar Dobby: "que lindo lugar para se estar com os amigos". Quem me dera ter tido um amigo como ele. Harry é especial por isso. Não tem preconceitos. É amigo de quem quer ser seu amigo. Não importa que seja bruxo, trouxa, gigante ou elfo doméstico. Ah! Os sonhos e as fantasias são mesmo muito mais vibrantes que a realidade.
Enfim, HP é tão perfeito que só pode ser uma história real. Tenho certeza que JK Rowling é na realidade uma Hermione Granger ou uma Gina Weasley que resolveu contar sua verdadeira história para o mundo dos trouxas.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

MINHA MÃE – NO MEU PASSADO E NO MEU PRESENTE - UM PRESENTE DE DEUS

Esta semana, por ser dia das mães no domingo, pensei em escrever uma reflexão sobre este personagem cem por cento presente na vida de cem por cento das pessoas. E é claro que uma reflexão sobre esse assunto versaria em torno da única pessoa que eu conheço como mãe: a MINHA. Mas aí já surgiu a primeira dificuldade. Minha mãe, não é a única pessoa que eu conheço no papel de mãe. A outra, obviamente, sou eu. Pensando por esse lado, cheguei a uma conclusão no mínimo, estranha. Conheço muito mais a mãe de outra pessoa (no caso da minha filha) do que a minha própria mãe. Sendo assim, será que eu realmente conheço minha mãe? Será que ela é realmente do jeito que eu vejo? Ou será que essa mãe que eu consigo enxergar com clareza, é a mãe que eu SOU e não aquela que eu TENHO? Confuso, né??? (sim, é confuso sim. dá pra mudar essa linha de pensamento???). Vou tentar.
Quando eu era criança, eu via minha mãe como uma mãe muito brava. Eu tinha dor de barriga a cada dois dias porque não queria ir à escola e ela, muito brava, dava-me palmadas no traseiro pra eu deixar de manha e pegar a estrada. E eu ia. Como eu nasci e me criei na roça, as oito horas da manhã, minha mãe pegava os quatro filhos, botava uma roupa velha no corpo, um chapéu na cabeça de cada um e íamos todos em um carrinho de burro pro meio da roça. Eu era muito pequena e achava tudo aquilo uma tortura. Como eu não tinha idade e nem força pra pegar no cabo da enxada, minha mãe me deixava embaixo de uma árvore e ia com os outros três para o penoso trabalho braçal embaixo de um Sol escaldante. Por muitas vezes, eu ficava ali sozinha, sentindo-me abandonada, desprotegida, com fome e algumas vezes tremendo de medo dos temporais de chuva que se armavam e partiam pra cima de mim como se fosse um bicho feroz querendo me devorar. Talvez, na fragilidade dos meus medos eu não pude, naquele momento, avaliar o quão valente foi aquela mulher que lutava contra seus próprios medos para transmitir a nós um pouco de confiança. Lembro-me (e essa eu tenho certeza que nenhum dos meus irmãos se esqueceu) de um dia em que o pobre burro fatigado desabou sobre as pernas, exausto, sem forças pra continuar. Recordo-me do esforço sobre-humano da minha mãe para conter o desespero e manter a calma naquele local distante e solitário com quatro crianças e um burro moribundo.
Em outras ocasiões, quantas vezes percebi que ela deixava de comer uma coisa, só para deixar para nós. E nós comíamos sem remorso. Sem perceber que talvez ela estivesse ficando com fome só para nos dar um pouco mais.
Então minha irmã caiu de um trator e rachou a cabeça. Depois do caso passado ríamos dela e dizíamos que nem assim ela tinha conseguido fazer os treze pontos (em alusão aos da loteria), porque nessa brincadeira ela ganhou quinze pontos e uma grande cicatriz. Mas, com esse acidente quem nunca mais cicatrizou foi o coração da minha mãe, que passou a nutrir um profundo desgosto de permanecer naquelas paragens áridas da zona rural. Lembro-me ainda de tantas vezes em que a seca da região era um prato cheio para as queimadas que se espalhavam pelos pastos secos e por várias vezes avançaram em direção à nossa casa. Nessas ocasiões, lembro-me da minha mãe rezando baixinho, pedindo proteção aos Santos que naquela época não me eram muito familiares.
Quando eu tinha dez anos, viemos para a cidade. Meu pai, de tirador de leite passou a dono se sorveteria. Nossa! Foi a melhor época da minha vida. Acho até que foi por causa disso que ganhei esses quilinhos a mais. E bastava meu pai dar uma ligeira bobeira e lá estava eu...roubando picolé. Tudo isso parecia um paraíso para mim, mas quem padecia nesse paraíso era minha mãe (afinal ser mãe é padecer no paraíso). O excesso de trabalho era grande e nós, ajudávamos muito pouco. Aos poucos, um por um, meus irmãos foram abandonando os estudos e por fim só restei eu. A possibilidade de sair da roça e concluir o segundo grau já era algo grande. Fiz magistério. E ser professora já era uma alegria sem tamanho (naquela época professores eram mais respeitados e valorizados). E eu sempre sonhei ser professora. Sonhava em falar, falar, falar (e eu falo, hein?). Mas ser professora da galera pequena, dos pixotes, dos pivetes, não me alegrava muito. Foi então que eu vi a possibilidade de juntar duas paixões: ser professora e a Biologia. Ir pra faculdade não foi tão difícil quanto permanecer nela. Meus irmãos abriram mão de realizações próprias em favor da realização dos meus sonhos. Minha mãe foi o grande incentivo silencioso desta jornada. As dificuldades financeiras eram muitas, mas ela sempre me descolava o dinheirinho do ônibus, do Xerox e muitas vezes levantou uma horinha mais cedo só pra me preparar aquela marmitinha para eu não gastar com comida. Humm! E é claro que a comida dela era cem mil vezes melhor que a do bandejão. Não sei se minha formatura trouxe a ela a compensação que ela merecia. Não sei se ela teve consciência de como ela foi importante na minha caminhada.
Vieram o mestrado e o doutorado. E quando o nascimento da minha filha me pegou bem no meio do meu doutorado, foi ela que ficou tomando conta do meu bebê, o qual eu nem tinha muito jeito (e nem paciência) para cuidar.
Há dez anos, um pedaço do coração da minha mãe partiu para sempre juntamente com a minha irmã. Não tenho ideia do que ela sentiu. Ninguém que não tenha perdido um filho pode avaliar isso, certamente. Quase um ano de depressão e dor extrema, no entanto, não foram suficientes pra derrubar essa mulher pacata, serena, chorona (uma manteiga derretida). Quando menos esperávamos ela ressurgiu das cinzas, voltou à vida e continua seguindo em frente. É ela o ponto de equilíbrio da minha família. É em torno dela que sentamos todos juntos. Como um grupo ao redor de uma fogueira em noite de geada.
Nessa véspera de dia das mães, às duas e trinta da madrugada, relembrando tudo isso, concluo que sou um lixo de filha. Que faço eu por ela? Que fiz eu por ela durante toda vida??? Como posso achar que sou boa filha se até hoje sei que ela não dorme enquanto eu não chego? E ainda fico brava com ela porque ela não dorme enquanto eu não chego. E eu como mãe? Como posso ser boa mãe pra minha filha se não chego aos pés da minha? Porém, agora que esta madrugada já está ficando fria e o sono já começa a me rondar, eu tenho apenas um agradecimento e um pedido a fazer. E não é à minha mãe. É a Deus.
Obrigada senhor, por eu estar viva, pois apesar de ter tantos defeitos, sei que minha mãe não suportaria me perder e quero te pedir: dê saúde e vida longa à minha filha para que eu possa voltar para os teus braços sem nunca ter visto um filho partir antes de mim. AMÉM!

sábado, 5 de maio de 2012

SALA DE ANATOMIA

                                                          

Seu corpo jaz frio

Há muito tempo inerte
Sua boca imóvel, calada
Seu silêncio ecoa no vazio

Na imensidão do morgue lúgubre
Uma gota de não sei quê
Pinga, parecendo um badalo
De um triste sino fúnebre

Sinto-me tão fascinada
E prostrada diante de ti
Ó morte, santa e bendita

Se foste sim, deixada por Deus
Por que temer-te ou odiar-te?
Resta render-me à tua justiça infinita